Queria entender meus sentimentos ou melhor, queria ser dono deles para que eu pudesse ter somente sentimentos bons. Mas será que existem sentimentos ruins?
Filó sempre se comparava com uma caixinha de surpresas, quando pensava em seus sentimentos. Achava que eles não poderiam ser controlados.
Um dia, foi ao cinema com seus amigos, Tomé e Juca. Como o cinema estava muito cheio, tiveram que ficar muito tempo “mofando” na fila. Enquanto esperavam a vez de entrar, aconteceu uma coisa que foi a pista para desvendar o mistério dos sentimentos: um menino que tomava refrigerante tropeçou, caiu e derramou tudo em Tomé e Juca. Foi aquela confusão! Tomé reagiu gritando e empurrando o menino, mas Juca...
... ao contrário, demonstrou preocupação e foi logo perguntando ao menino se ele havia se machucado.
Filó ficou intrigada:
Por que os meninos reagiram de maneira tão diferente diante da mesma situação?
Ela, agora, só queria saber os motivos que levaram seus colegas a agirem assim. Não perdeu tempo, foi logo perguntando aos garotos:
- Tomé, por que você emperrou o menino?
Tomé ainda estava nervoso e quase sobra para Filó:
- Não me enche, Filó!Está com pena dele? Olha que quem tem pena é ato. Você não vê que estou todo molhado e vou ficar todo melando? Aposto que ela fez isso de propósito, só porque eu estava na frente dele. Que ódio! Se vocês não me segurassem, eu teria quebrado a cara dele. Agora, também não quero mais ver agora de filme nenhum! Eu vou embora sozinho.
Tomé saiu batendo os pés no chão, nem deu tempo de Filó falar nada. Juca no entanto...
...ainda ajudava o menino a se recuperar do tombo, quando Filó aproximou-se dele e viu o menino agradecer-lhe e ir embora.
- Que coisa chata né, Filó? Levar um tombo desse! Ainda mais com um copo de refrigerante. Você viu como ele ficou todo molhado?
- Mas você também se molhou!
- Não tem importância, ele não fez por mal! Fique aqui na fila, vou passar uma água e volto logo. Já está quase chegando a nossa vez.
Enquanto Juca foi se lavar, Filó percebeu que ele era sempre mais calmo para resolver suas coisas; ao contrário de Tomé, que sempre ficava com raiva e culpava os outros por tudo o que acontecia com ele.
Quando Juca voltou, Filó perguntou:
- Juca, você é sempre tão calmo... Não é possível que você não tenha sentido raiva quando ele te molhou com refrigerante.
- Eu senti raiva, sim.
- E por que não reagiu? Ao contrário, até o ajudou a levantar-se do chão.
- Eu sinto raiva sim, Filó. Só que eu não saio mais batendo e nem brigando com todo mundo. Mas eu não sou bobo não e nem tenho sangue de barata. Eu posso sentir tudo: raiva, ódio, inveja, todos os sentimentos que a gente não gostaria de ter, mas tem, Agora, antes de reagir, eu escolho que bicho eu vou ser.
- Que bicho você vai ser?
- Ah, Juca! Eu aqui prestando a maior atenção e você fazendo hora com a minha cara?
- Calam, Filó! Eu vou te explicar.
Um dia eu estava na casa da minha avó e vi minha mãe se arrumando para sair. Quando falei que eu queria ir junto, ela respondeu que ia pensar; eu comecei a chorar e fui ficando com tanta raiva, que chorava cada vez mais alto. Então fiz pirraça e joguei todos os meus brinquedos no chão. Até o carrinho novinho, que tinha esperado um tempão para ganhar, eu quebrei.
- Tá bom Juca, e daí?
- Daí que minha mãe me deu uns tapas, me pôs de castigo e saiu sozinha. O pior é que ela falou que eu só não fui com ela, porque eu “aprontei” daquele jeito.
É, eu fiquei de castigo, sem meu caminho, com vergonha dos outros e com raiva de mim mesmo.
- E onde entra a história dos bichos?
- Depois que a minha mãe saiu, minha avó me levou para a varanda, me pôs no colo e disse: “Juca, vou te contar em segredo que eu guardo desde pequenininha. Você promete que não conta para ninguém?”
- Respondi que sim. Então ela falou:
- Juca, nós temos dentro de nós cinco bichos: um leão, um coelho, um elefante, uma tartaruga e uma formiga. Cada bicho desses é importante para nós, e todos eles nos protegem. Mas somos nós que temos que ser os domadores, não eles.
O leão é a ira; o coelho, a pressa; a tartaruga, a paciência; o elefante, o amor; e a formiga, a responsabilidade. Portanto, na hora da escolha, você tem que decidir que bicho você vai ser.
Muitas vezes, ele aparece de repente e fica forte. Aí é que nós temos que domá-lo com a ajuda de um outro bicho. Por exemplo: se estamos bravos como um leão, não podemos ser rápidos como um coelho. Nem o leão é totalmente ruim, nem o coelho também é. Mas os dois juntos nos transformam em um bicho muito mais perigoso e ameaçador, para nós mesmos, e para as pessoas que estão perto da gente.
Veja você agora; você virou um leão, porque achou que não iria sair com sua mãe. Agiu como um coelho, porque fez, depressa e sem pensar, tudo o que teve vontade. Se você tivesse domado o coelho e chamado a tartaruga, teria tido tempo de achar uma outra solução e não precisaria estar assim, arrependido e triste.
- Eu falei assustado:
Mas, vó, como vou conseguir agir assim? Como vou saber que bicho escolher? Até parece que eu nasci só com o leão e o coelho.
- Juca, meu filho, todos nós nascemos com todos esses bichos. Cuide de todos eles. Ser leão é bom para nos ensinar a reconhecer e evitar o que nos faz mal; o coelho nos protege, porque tem hora em que temos que ser rápidos; a tartaruga nos ensina a ser tolerantes; o elefante nos ensina a perdoar a sermos amigos e a compreender; e a formiga nos faz ser responsáveis confiáveis. Vou te dar uma dica.
Alimente mais a sua tartaruga, conte até dez. Você verá que ela começa a crescer e ficará forte como o leão. A tartaruga sempre abre caminho para o elefante. E, como certeza, será vocÊ mesmo quem se sentirá mais feliz com sua escolha.
Filó, emocionada, deu um abraço em Juca e disse:
- Você se tornou um grande domador, Juca.
- Filó, para eu ser um grande domador, eu não posso descansar. Tenho que vigiar os bichos todos os dias, o tempo todo. Dá muito trabalho, mas vale a pena.
Hoje eu parei de brigar comigo e com os outros e disso estou gostando muito
