18 junho 2010

Livro não se empresta...


“Nem se devolve”, completava um amigo nosso, useiro e vezeiro em guardar eternamente os livros que lhe emprestávamos. “Livro não tem dono, por isso eu tomo!”, repetia ele, risada diabólica, olhos argutos, dedos compridos. E ficávamos com receio de deixá-lo entrar em nossas modestas bibliotecas.

A dele não era modesta. Tinha livros por toda a casa. Em cima da geladeira, dentro dos armários e gavetas, na mesa da cozinha, no banheiro, debaixo da cama, porque todas as estantes já estavam ocupadíssimas, e as estantes cobriam todas as paredes, na sala, no quarto, no corredor.

Esse amigo era o terror das livrarias e sebos. Sem que se soubesse como, furtava os livros e desaparecia com eles, e a essas livrarias e sebos retornava como se nada tivesse acontecido. Nunca ninguém conseguiu flagrar, filmar, fotografar, mas todos sabíamos que era ele.

Não empregávamos a palavra “ladrão” para qualificá-lo. Seria ele talvez um pobre monocleptomaníaco — sua idéia fixa eram os livros, sobre os mais variados temas, nos mais inusitados idiomas.

Esse amigo não pretendia casar-se. Não tinha espaço para dividir. Nem na casa nem no coração. Chegara a ficar noivo de uma livreira... mas a moça percebeu que o interesse dele não era por seus belos olhos e sim por seus belos livros.

Feira de livro é com ele mesmo. Horas e horas por entre os estandes, livros misteriosamente escondidos dentro de seu casaco — ninguém se dá conta.

Nós sabíamos. Deveríamos ter denunciado o nosso amigo à polícia? Deveríamos ter obrigado nosso amigo (ele se sentia muito mais amigo dos livros do que nosso...) a consultar um psiquiatra?

Ladrão incomum, não pensava em dinheiro, não revendia os livros. Passava as noites lendo romances e tratados científicos, pensamentos poéticos e versos filosóficos. Não lia para ministrar aulas e palestras. Lia para satisfazer sua vontade de ler, estranha conduta...

Lia para experimentar a dor e o prazer, a saudade, o entusiasmo. Não era só monocleptomaníaco, mas também bibliomaníaco irrecuperável. Sua obsessão: ver, cheirar, tocar os livros. Ao dormir, cobria-se com enciclopédias. E como travesseiro, um dicionário, que lhe parecia macio, recheado de lã e nuvens.

Vãs foram nossas tentativas de reeducá-lo. Chegamos a levar nosso amigo a um padre, que talvez pudesse exorcizá-lo daquele demônio. Mas o padre o expulsou da paróquia quando viu que ele queria roubar a sua bíblia.


Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.
Web Sitewww.perisse.com.br

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Eu às vezes não entendo! As pessoas em um jeito De falar de todo mundo Que não deve ser direito. Aí eu fico pensando Que isso não está bem. As pessoas são quem são, Ou são o que elas têm? Eu queria que comigo Fosse tudo diferente. Se alguém pensasse em mim, Soubesse que eu sou gente. Falasse do que eu penso, Lembrasse do que eu falo, Pensasse no que eu faço Soubesse por que me calo! Porque eu não sou o que visto. Eu sou do jeito que estou! Não sou também o que eu tenho. Eu sou mesmo quem eu sou! Pedro Bandeira
 

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